AdFection: anúncios comuns viraram canal de spyware de clique zero, revela Citizen Lab.

Uma investigação do Citizen Lab, laboratório da Universidade de Toronto, revelou um ataque capaz de infectar celulares pela simples exibição de um anúncio — sem clique, sem link suspeito, sem download. Batizada de AdFection, a tática usa o sistema de leilões de anúncios digitais para perfilar milhões de pessoas e entregar spyware mercenário a alvos escolhidos. É a primeira demonstração técnica de infecção em circulação por esse canal, segundo o relatório, publicado na quinta (15).

Diagrama do Citizen Lab mostrando a ponte entre o ecossistema de anúncios online e o setor de spyware mercenário

Citizen Lab

OVERRATED ↑

Não clicar em nada estranho: contra clique zero, não basta

UNDERRATED ↓

Google, IAB Europe e Beeswax já cortaram o acesso da operadora

A ponte entre anúncios e espionagem

No centro do esquema está a Discover-Tech, empresa de publicidade sediada em Israel que opera a plataforma Controlium — descrita pelo Citizen Lab como balcão único para empresas de spyware infectarem alvos via anúncios. O relatório não encontrou evidência de que a empresa tenha atividade publicitária legítima. Entre os clientes da Controlium está a Candiru, desenvolvedora israelense na lista de entidades do Departamento de Comércio dos EUA por spyware usado contra "autoridades governamentais, jornalistas, empresários, ativistas, acadêmicos e funcionários de embaixadas", e hoje ligada à americana Integrity Labs. A plataforma também se conecta à Bindecy, especializada em exploits de clique zero, e à Intelos.

O mecanismo: quando um anúncio da Discover-Tech é exibido, o identificador de publicidade e o IP do usuário vão para os servidores da empresa. Se o alvo for selecionado, o aparelho recebe um JavaScript malicioso que o navegador ou o app executa — e a infecção acontece. Os pesquisadores confirmaram, com alta confiança, que aparelhos da rede de notícias Al Jazeera foram alvo e infectados com o spyware da Candiru; o Estadão apurou que ao menos 45 dispositivos ligados à emissora foram atingidos entre 2024 e 2025.

Perfis à venda no leilão

O vetor é o leilão em tempo real (RTB): a cada anúncio exibido, centenas de bilhões de lances diários carregam dados sobre os dispositivos. "A plataforma permite que atores maliciosos perfilem e tirem o anonimato com precisão milhões de indivíduos, identifiquem seus dispositivos e os atinjam com uma forma de invasão de clique zero, na qual os aparelhos podem ser automaticamente infectados no momento em que um anúncio é exibido", escreveram os pesquisadores, segundo o Estadão. As ferramentas da Discover-Tech foram detectadas em milhares de apps e sites entre março e junho — inclusive em redes ligadas à Otan e à ONU.

A reação veio rápido: o Google informou ao Citizen Lab que "encerrou o acesso da Discover-Tech às suas plataformas de leilão de anúncios, impedindo-a de dar lances ou exibir anúncios em todo o ecossistema" e ativou "proteções de Navegação Segura para alertar usuários que possam encontrar domínios controlados por esse grupo". IAB Europe e a plataforma Beeswax também suspenderam o acesso. Discover-Tech e Candiru não se pronunciaram.

O que isso significa no Brasil

Contra clique zero, o cuidado clássico de "não clicar em link estranho" não resolve: a infecção acontece na exibição do anúncio. A defesa que sobra para o usuário comum é a rotina chata — sistema e apps sempre atualizados, já que exploits vivem de brechas corrigidas nos patches mais recentes. O relatório pressiona é a indústria: "a menos que a indústria de anúncios enfrente seriamente a distribuição de sistemas espiões por meio de anúncios direcionados, essa infraestrutura continuará sendo explorada", escrevem Bill Marczak e os pesquisadores. Para entender por que a atualização do celular é a barreira mais eficaz, o guia como ler um patch day explica o que cada pacote corrige.

Fontes primárias verificadas (3) ▾

The Zero.