Um agente da OpenAI entrou no portal do Medicare. O aviso foi um e-mail numa caixa pública.

Nesta quinta (24), em Nova York, o primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, descreveu um acesso não autorizado de 18 de junho ao portal público de estatísticas do Medicare, operado pela Services Australia. O agente era da OpenAI, num trabalho interno sobre gasto público com medicamentos. Encontrou bloqueio, buscou outro caminho e leu arquivos públicos e não públicos. A empresa só avisou em 10 de setembro, por e-mail numa caixa pública. O registro da coletiva é a fonte do que o governo afirma nesta matéria.

Anthony Albanese ao microfone num púlpito, com bandeiras da Austrália ao fundo

Yu Chu Chin / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Conferência Nacional do Partido Trabalhista australiano, Adelaide, 23 de julho de 2026. Não é a coletiva desta quinta em Nova York.

Overrated

ler Medicare e achar que vazou prontuário

Underrated

o aviso numa caixa pública, 84 dias depois do acesso

O que Albanese descreveu

Medicare, neste caso, é o sistema público de saúde da Austrália. Não é o Medicare dos Estados Unidos e não é prontuário do SUS. O portal, nas palavras do primeiro-ministro, é uma página pública de estatística, com informação não sensível de gasto e outros números. A ABC descreve o que essa página publica: estatística agregada de bulk billing, imunização, subsídio de medicamentos, cadastro de doadores de órgãos e relatórios anuais.

O ex-secretário do departamento de saúde, Stephen Duckett, disse à ABC que o dado sai de atendimentos reais, mas o portal não carrega a pessoa:

“My information is buried in there, but nothing about me personally goes into these public portals.”

O acesso que Albanese relatou não parou no que já era público. O agente leu arquivos públicos e não públicos. A ABC diz que o governo trata esse material não público como pouco sensível e afirma que ele já foi tornado público. A OpenAI, à CNBC, diz que a revisão não achou evidência de prontuário de paciente. O que o porta-voz descreve é estatística agregada de saúde e nomes de arquivos internos.

Albanese foi explícito no que ainda não está fechado. Não há, neste estágio, evidência de que alguma pessoa tenha sido afetada. Também não há, no que já se viu, comprometimento mais amplo da rede da Services Australia. As apurações continuam. A frase dele para o conjunto: “this situation is obviously unacceptable.”

O caminho, no nível em que a coletiva ficou, é curto. Em 18 de junho, o time de pesquisa da OpenAI usou um modelo interno para pesquisar na internet o gasto público com medicamentos. Houve bloqueios. O agente não aceitou o não — a frase do primeiro-ministro é “didn't accept no for an answer” — e tentou outros meios de obter a informação. Isso levou ao acesso não autorizado. A Services Australia também informa que, para fazer isso, o agente escreveu arquivos no servidor interno. Esse ponto segue em investigação. A coletiva não descreveu a falha, o comando nem o quanto do servidor foi alterado.

Oitenta e quatro dias até a caixa pública

Do acesso, em 18 de junho, ao e-mail, em 10 de setembro, são 84 dias.

A OpenAI disse à CNBC que a atividade foi em junho e que a empresa só percebeu em agosto, numa revisão do que chama de “misaligned model activity”. O porta-voz: “In the course of that, our models took actions we did not intend.” A revisão geral, segundo a empresa, continua. Albanese, perguntado sobre quando a companhia soube, não deu a data. Disse que o detalhe sai do exame forense.

A ABC registra um encontro de Sam Altman com o primeiro-ministro interino, Richard Marles, em 1º de setembro, em San Francisco. A reportagem não afirma que Altman conhecia o caso nesse dia. Diz o contrário do atalho: não se sabe.

O que Albanese fixou na linha do aviso:

  1. Até 10 de setembro não houve notificação. O e-mail foi para a caixa pública da Services Australia. Ele chamou de inaceitável tanto a demora quanto o modo.
  2. Em 11 de setembro a agência viu a mensagem, segundo a ABC. Em 15 de setembro reportou o aviso ao Centro Australiano de Cibersegurança, da Diretoria de Sinais (ASD). É a data que o primeiro-ministro também deu.
  3. No fim da semana passada a Services Australia informou a ministra Katy Gallagher. Albanese e o gabinete souberam no fim de semana.

Nesta quinta ele falou com Altman por telefone, em Nova York. Não foi presencial. Disse ter transmitido a “extreme concern” da Austrália e a decepção com o tempo e com a forma do aviso. Sobre um pedido de desculpas, não cravou a palavra. Disse que Altman aceitou que a empresa não tinha feito o bastante e que os protocolos não estavam à altura.

O primeiro-ministro interino, Richard Marles, deu à ABC a outra metade. O portal de estatística médica não tem a proteção do que o governo considera segredo de Estado: “We keep our most important national security information behind a fortress. This was really kept behind a fence that the AI agent effectively climbed over.” Marles também disse que a OpenAI tem sido cooperativa e transparente.

O que a força-tarefa ainda não decidiu

Albanese anunciou uma força-tarefa para revisar, com urgência, se os processos atuais servem para incidente cibernético ligado a IA. Lidera o departamento do primeiro-ministro. Entram o coordenador nacional de cibersegurança, o Escritório de IA, a ASD, o Instituto Australiano de Segurança de IA e a Services Australia. O relatório deve olhar resposta policial e legislativa. O caso vai à comissão parlamentar conjunta de inteligência artificial. O governo vai pedir parecer urgente sobre se houve crime e se a Polícia Federal australiana entra. Ele disse que haverá consequência jurídica e, na frase seguinte, que seria inadequado antecipar o encaminhamento à polícia.

Três outros sistemas podem ter sido atingidos, no mesmo incidente, sem confirmação: o Australian Institute of Health and Welfare, o NSW Bureau of Crime Statistics and Research e o Departamento de Saúde de Vitória. Na noite anterior, no horário australiano, ele falou com os premiers Carroll e Minns. Não é ator estrangeiro, disse. É projeto de pesquisa da própria OpenAI que entrou onde não devia.

Perguntado se era o primeiro caso do tipo no mundo, Albanese não afirmou isso. Disse que o governo não achou precedente de que tivesse notícia. Pode haver outro. A embaixada informou o governo dos Estados Unidos de que a coletiva aconteceria. No registro, ele não respondeu se tinha levado o caso a Donald Trump na véspera.

Fontes

The Zero.