TikTok tira 7,96 milhões de vídeos no Brasil. O Google ainda não entregou o número.
O inteiro está no primeiro relatório de transparência do TikTok para o ECA Digital: 7.962.551 vídeos removidos no Brasil entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026, por violação de políticas ligadas à segurança de crianças e adolescentes. A tabela está no guia oficial da empresa. Não é estimativa de redação.
O prazo da ANPD para publicar esse primeiro relatório era 17 de setembro. A leitura dos documentos é o que está na mesa agora. O Google, no texto que o Estadão leu, ainda empurra as métricas para 25 de setembro — sexta.

Coolcaesar / Wikimedia Commons (CC BY 4.0) — sede do TikTok em Culver City, 26 de junho de 2024
Overrated
somar TikTok, Instagram e Roblox na mesma coluna
Underrated
abrir o PDF: consequência no Roblox não é conta encerrada
O que saiu do TikTok
A plataforma achou quase tudo sozinha. Das 7.962.551 remoções, 7.892.892 foram proativas. As outras 69.659 caíram depois de denúncia ou notificação. As duas tabelas estão no relatório, como imagem. A soma das categorias fecha o total.
O volume não é uma gaveta só. No semestre:
- 2.385.107 por exposição do corpo e comportamentos sexualizados
- 1.695.344 por produtos e serviços regulamentados
- 1.160.271 por abuso físico e sexual de jovens
- 1.032.822 por atividades e desafios perigosos
Suicídio e automutilação: 82.786 vídeos. É categoria de moderação. O relatório não diz quantos mostravam uma tentativa real, nem quantos envolviam criança.
No mesmo período, 2.030.651 contas foram removidas por suspeita de que o usuário tinha menos de 13 anos. Houve 322.297 recursos. A empresa restaurou 212.659. O próprio texto do TikTok resume o efeito: cerca de 10% das remoções voltaram atrás via recurso. Quem recorreu teve outra taxa — 212.659 de 322.297, cerca de dois em cada três. O documento não separa quantas restaurações eram adulto marcado por engano.
O recorte é o semestre civil inteiro. A lei entrou em vigor em 17 de março. Janeiro e fevereiro entram na conta do TikTok antes da vigência. A ANPD permitiu, a quem não tivesse dado de janeiro e fevereiro, limitar o primeiro relatório a 17 de março–30 de junho. O TikTok escolheu o semestre cheio.
O Instagram removeu 1,81 milhão de contas por exploração
O relatório da Meta não está numa nota do newsroom. O Estadão e a A Crítica publicaram os mesmos inteiros, lidos do documento. De janeiro a junho, o Instagram removeu 1.843.839 contas por violação dos padrões da comunidade. Dessas, 1.813.982 foram por exploração sexual, abuso e nudez infantil.
No Facebook, 596.120 contas. Na mesma categoria, 525.571.
A Meta classificou como médio o risco residual, no Facebook e no Instagram, para exploração e abuso sexual infantil e para indução a danos à saúde, como suicídio e automutilação. A frase da empresa, no que o Estadão transcreveu:
“O principal fator que contribui para esse resultado é a severidade do dano, mesmo em situações em que a probabilidade de ocorrência do risco é relativamente menor.”
Risco médio depois da salvaguarda não é “resolvido”. É a empresa dizendo que o dano, quando ocorre, pesa mais do que a chance de ocorrer.
No Roblox, 1,25 milhão não é conta banida
O relatório do primeiro semestre conta 434.798 itens de conteúdo associados a usuários no Brasil e removidos no período. O texto diz que 99% dos conteúdos que violavam as normas e aparecem no gráfico por tipo de ativo foram identificados por automação.
No gráfico por norma, o topo é compartilhamento de informações pessoais (134.221, 30,9%) e conteúdo romântico e sexual (131.067, 30,1%). Palavrões: 45.173, 10,4%. Exploração infantil, como categoria de conteúdo, aparece com 1.148 itens. A régua não é a do TikTok.
Do lado da conta, o total é 1.245.755 consequências a usuários no Brasil. O gráfico separa o tipo:
- 757.150 restrições temporárias de recurso (60,8%) — a nota do relatório explica: trava temporária de uma função, como o chat
- 453.740 suspensões de conta (36,4%) — restrição temporária da conta inteira
- 34.865 encerramentos de conta (2,8%)
Suspensão mais encerramento dá 488.605. A frase que circula hoje no Times Brasil — “mais de 1 milhão de contas” — junta o que o PDF separa. Consequência inclui calar o chat. Não é banimento.
O formulário de denúncias do ECA, no mesmo PDF, cobre outro recorte: 13 de março a 30 de junho. Foram 5.519 denúncias, cada uma com um item. Dessas, 976 resultaram em violação das normas da comunidade. Na categoria de exploração ou abuso sexual infantil, o formulário registra 1.765 denúncias e 436 violações confirmadas. Isso é o canal novo da lei. Não é o total de moderação do semestre.
O documento do Google cabe em duas páginas
Enquanto TikTok, Meta e Roblox puseram tabela, o Google publicou um documento de duas páginas, segundo o Estadão. O próprio texto, na transcrição da reportagem, avisa que “as métricas referentes ao período de 17 de março a 30 de junho ainda estavam passando por validação interna e seriam complementadas até 25 de setembro”.
Não há, nesse primeiro documento, número de denúncias, moderação por tipo, contas infantis identificadas, consentimento parental ou resultado de avaliação de risco. Sexta é o prazo que a empresa escreveu. Não é o prazo da ANPD. O da agência, para a publicação, era 17 de setembro.
Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil, chamou o relatório de “escandaloso” na entrevista ao Estadão. A frase seguinte, na mesma reportagem: “A impressão que dá é que não querem criar uma precedência regulatória que pode influenciar outros países a exigir o mesmo.” O jornal registra que ele ajudou a elaborar o ECA Digital. Maria Mello, gerente de Digital do Instituto Alana, disse ao mesmo veículo que os relatórios são um começo e que faltam dados sobre como os algoritmos tratam contas de adolescentes.
R$ 50 milhões não é a multa de hoje
O art. 35 da Lei 15.211/2025 escreve a sanção em dois ramos, depois de advertência, devido processo, defesa e contraditório. Com faturamento no Brasil: multa de até 10% do faturamento do grupo econômico no último exercício. Sem faturamento: de R$ 10 a R$ 1.000 por usuário cadastrado, limitada a R$ 50 milhões por infração.
O teto de R$ 50 milhões que as manchetes repetem é o ramo sem faturamento. TikTok, Meta, Roblox e Google não estão nesse ramo. A ANPD aplica advertência e multa. Suspensão e proibição de atividade são do Judiciário. O § 4º manda atualizar os valores pelo IPCA, na forma de regulamento. No Planalto, o texto da sanção continua com esses números.
Nada disso foi aplicado hoje por causa destes relatórios. O Estadão ouviu a ANPD: a agência analisa os documentos. Análise não é sanção.
O art. 31 exige o relatório, em português, no site do provedor, de quem tem mais de 1 milhão de usuários menores de 18 anos registrados no Brasil. Canais de denúncia, quantidade de denúncias, moderação por tipo, identificação de contas infantis, privacidade, consentimento parental e avaliação de risco. O Decreto 12.622/2025 designou a ANPD como autoridade administrativa. O próximo relatório, de julho a dezembro, tem de estar no ar até 1º de fevereiro de 2027.
Fontes
- TikTok — guia de transparência do ECA Digital no Brasil (tabelas de remoção de vídeo do primeiro semestre de 2026 e texto sobre contas de menores de 13 anos)
- Roblox — Relatório de Transparência ECA Digital, primeiro semestre de 2026
- Estadão — o que Instagram, TikTok e Roblox removeram depois do ECA Digital (22/09/2026)
- A Crítica — os mesmos inteiros de contas da Meta (22/09/2026)
- Times Brasil | CNBC — leitura publicada em 23/09/2026
- ANPD — prazo do primeiro relatório semestral, 17/09/2026
- Lei nº 15.211/2025, arts. 31 e 35 — Planalto
- Decreto nº 12.622/2025 — ANPD como autoridade do ECA Digital