A Microsoft publicou um alerta detalhado sobre uma campanha em que o grupo Storm-0940, que a empresa classifica como alinhado ao Estado chinês, usou um framework de IA agêntica chamado ARTEX para automatizar ataques contra centenas de organizações no mundo. A operação está ligada ao comprometimento da cadeia de suprimentos da ConnectWise, revelado em 16 de outubro, e marcou um salto de escala: depois do acesso inicial, o ator tentou login em mais de 2.250 tenants de clientes.

O Storm-0940 atua desde 2021 com foco em roubo de dados, historicamente por pulverização de senhas e exploração de aplicações expostas na internet. A novidade, a partir de setembro de 2026, foi acoplar o ARTEX ao fluxo. O framework é open source, escrito em Go com interface Next.js, aceita qualquer modelo de IA e conduz um teste de invasão quase sem intervenção humana: do reconhecimento à exfiltração, os agentes acumulam ativos e vulnerabilidades num grafo. A interface e os relatórios saem em inglês por padrão, mas o framework pode ser alternado para coreano, mandarim, espanhol ou japonês. A Microsoft já observou atores de várias regiões usando a ferramenta, e reportes públicos de outubro a associam a vazamentos de dados pessoais em instituições financeiras da Coreia do Sul.

Velocidade de máquina

Os números mostram por que a Microsoft trata o caso como marco. Em várias organizações, o tempo entre a primeira tentativa e o acesso privilegiado à nuvem foi menor que 3 horas. O grupo abusava de aplicações OAuth já autorizadas pelo próprio cliente para entrar no Microsoft 365 sem login interativo e, em seguida, fazia reconhecimento via Microsoft Graph, trocava credenciais de aplicações e tentava elevar privilégios.

Uma campanha paralela, entre 10 e 14 de outubro, mostra a mesma escala do outro lado: a infraestrutura do ator disparou pulverização de senhas contra 327 contas em oito organizações, gerando mais de 151 mil falhas de login, com pico de 2.900 tentativas por minuto em 11 de outubro. Quase 98% das tentativas caíram em bloqueio de conta e nenhuma autenticação foi concluída com sucesso. A Microsoft ressalva que a atividade não veio de comprometimento de seus próprios sistemas e que a presença de login do ator não significa, por si, dados acessados ou exfiltrados.

Os setores visados vão de aeroespacial e defesa a energia, finanças, governo, semicondutores, tecnologia e organizações sem fins lucrativos. Agentes não dormem, não têm fim de semana e testam vários caminhos de invasão ao mesmo tempo — na leitura da Microsoft, é isso que permite escala exponencial com a mesma equipe.

O que a empresa recomenda

A ConnectWise, cuja brecha envolveu o acesso não autorizado associado ao produto Cloud Backup, publicou o primeiro aviso em 16 de outubro e depois ampliou as divulgações e o guia de contenção. Foi nessa esteira que o Storm-0940 acelerou varredura, reconhecimento, pulverização de senhas e abuso de aplicações OAuth nas vítimas em cadeia. O alerta da Microsoft traz detecções prontas no Defender XDR e três frentes de ação: revisar logins de service principals, investigar mudanças inesperadas em credenciais ou privilégios de aplicações e seguir as orientações de contenção publicadas pela ConnectWise, preservando evidências para investigação. A embaixada da China negou envolvimento, segundo reportagens sobre o caso.

O que isso significa no Brasil

Empresas brasileiras que rodam Microsoft 365 entram no mesmo mapa de alvos, porque o ataque não depende de país: depende de aplicação OAuth autorizada demais e senha reutilizada. A lição prática é conhecida e segue subaproveitada — autenticação em duas etapas em todas as contas, revisão periódica dos aplicativos com acesso ao tenant e senha única por serviço. Sobre o cuidado com permissões dadas a agentes e integrações, vale reler o nosso guia de permissões que você não deve marcar para agentes de IA.