A Anthropic anunciou que pretende destinar 5% de suas ações a um novo Fundo de Benefício Público, estrutura que vai permitir doações para iniciativas voltadas ao "bem público", incluindo medidas para mitigar os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. A informação é de reportagem da Bloomberg publicada pelo O Globo no domingo (18) e confirmada pela Associated Press.

Anthropic / Wikimedia Commons. A dona do Claude prepara uma das maiores aberturas de capital da história.
Como o fundo vai funcionar
Segundo o comunicado da empresa, o fundo não será uma organização sem fins lucrativos: será uma sociedade de responsabilidade limitada integralmente controlada pela própria Anthropic, sujeita à aprovação dos acionistas. Os 5% iniciais podem crescer: o conselho de administração poderá acrescentar mais 2% das ações a cada aumento de 50% no valor da empresa acima de uma linha de base predefinida.
A Anthropic afirmou ainda que nenhuma participação acionária destinada ao fundo será usada para lobby ou doações políticas, nos Estados Unidos ou no exterior. No comunicado, a empresa diz que a estrutura permitirá avançar em sua missão "de novas maneiras", como destinar recursos para enfrentar os impactos da IA sobre os empregos.
A pressão sobre o mercado de trabalho
O anúncio chega em um momento de alertas explícitos sobre o emprego. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, descreveu a IA como um possível "tsunami de avanço lento", capaz de esvaziar o mercado de trabalho de baixa remuneração. A preocupação ganhou tração à medida que empresas passaram a adotar agentes de IA capazes de executar tarefas antes feitas por pessoas.
A própria Anthropic vive um ano de atritos com o governo americano. A companhia foi classificada como risco para a cadeia de suprimentos depois de tentar limitar alguns usos de sua tecnologia pelo Pentágono, apesar de já ter oferecido sua IA para aplicações militares sensíveis, como tecnologia de drones autônomos. Em setembro, o presidente Donald Trump recebeu líderes do Vale do Silício na Casa Branca, entre eles o diretor-presidente da Anthropic, Dario Amodei. Na ocasião, com Trump rejeitando novas regulações federais, governo e empresas concordaram com uma estrutura em que as desenvolvedoras de IA contratariam auditores externos para avaliar os riscos de segurança de seus modelos.
O IPO que se aproxima
A movimentação acontece enquanto a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial de ações que deve figurar entre as maiores da história. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pela Bloomberg no início de outubro, a empresa pode começar a promover formalmente o IPO já na semana de 9 de novembro — uma segunda-feira —, o que a colocaria no caminho de estrear na bolsa antes do feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, em 26 de novembro, uma quinta-feira.
Separar uma fatia do capital para um fundo de benefício público antes da estreia na bolsa tem um efeito prático: torna a estrutura parte do desenho societário que os futuros acionistas vão comprar. Em janeiro, no ensaio The Adolescence of Technology, Amodei escreveu que os cofundadores da empresa se comprometeram a doar 80% de sua riqueza. O novo fundo leva esse compromisso do plano pessoal para o capital da companhia.
O que isso significa no Brasil
O Brasil é um dos países onde a discussão sobre IA e emprego é mais concreta: o país tem uma base enorme de trabalhadores em funções administrativas, de atendimento e de suporte, exatamente as categorias que os agentes de IA já começam a absorver. Um fundo desse porte, se de fato financiar programas de transição profissional, tende a gerar iniciativas globais — mas o desenho anunciado não garante nenhum repasse direto a países fora dos Estados Unidos. Para quem quer se preparar desde já, o guia IA grátis para trabalho em 2026 lista as ferramentas que valem usar no dia a dia sem pagar nada.





