O governo dos Estados Unidos ordenou que agências federais civis parem de usar qualquer ferramenta de inteligência artificial da chinesa DeepSeek e removam esses produtos de seus computadores. A ordem do Departamento de Segurança Interna (DHS) foi tornada pública nesta segunda (19), segundo AFP e BBC — mas, como revela a BBC, a proibição já estava em vigor desde o fim de julho.

DeepSeek / Wikimedia Commons. A startup chinesa abalou o setor em 2025 com modelos abertos de baixo custo.
O que a ordem determina
O comunicado do DHS proíbe não só os produtos desenvolvidos pela DeepSeek como também ferramentas criadas por terceiros com ajuda de seus modelos — todas devem ser removidas dos dispositivos de computação das agências. Um documento anexo afirma que "os modelos da DeepSeek apresentam múltiplos vetores de ameaça", sem detalhar as preocupações de segurança.
O alcance tem um limite importante: o DHS só pode ditar regras para agências civis, como os departamentos do Tesouro, de Estado e de Justiça. As forças armadas e os serviços de inteligência ficam de fora, e o Departamento de Defesa não respondeu aos pedidos de comentário.
A distância entre a data de publicação e a data de vigência também chama atenção. Se a proibição valia desde julho, a ordem desta segunda formaliza e dá publicidade a uma decisão que já estava implementada — movimento lido por analistas como parte da estratégia do governo Trump de pressionar a China no campo da IA, tema que o presidente trata como central para o futuro do país.
A disputa por trás do veto
A ordem chega em meio à escalada da disputa tecnológica entre EUA e China. O chefe de tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, escreveu neste ano em memorando interno que estaria ocorrendo "exploração maliciosa" de empresas americanas de IA, principalmente por rivais chinesas. Anthropic e OpenAI — ambas a caminho da bolsa — já afirmaram que seus modelos foram essencialmente copiados por empresas chinesas, incluindo a DeepSeek.
A DeepSeek virou símbolo dessa corrida por ser aberta e barata: seus modelos rodam por uma fração do custo de alternativas como Gemini, Claude ou GPT, e a empresa afirmou, no ano passado, ter gastado cerca de US$ 6 milhões para treinar a primeira versão — contra cerca de US$ 100 milhões estimados para o GPT-4 da OpenAI. A revelação derrubou ações de tecnologia na época. Por ser aberta, a DeepSeek também está embutida em produtos de empresas americanas como Snowflake, Vercel e OpenRouter, o que complica uma remoção completa fora do governo. A versão mais recente do modelo foi lançada na semana passada, com usuários elogiando o desempenho em tarefas de programação.
O que isso significa no Brasil
O veto americano não muda nada diretamente por aqui: a DeepSeek segue disponível e gratuita para usuários e empresas brasileiras, e é uma das opções mais fortes de IA aberta do mercado. Mas o episódio é um lembrete prático sobre soberania de dados: governos e empresas passaram a olhar com lupa para onde os dados enviados a um chatbot vão parar, e a regra de ouro continua valendo para qualquer serviço, chinês ou americano. O guia o que você não deve colar no chat de IA explica o que manter fora dessas conversas.





